Aparências e competências
Fulana adentrou o café com cara azeda, parou a alguns passos da porta, baixou os óculos escuros até a ponta do nariz e o encolheu enquanto os olhos perambulavam no ambiente sem que a cabeça se movesse. Ninguém à vista, enfim tirou os óculos e pendurou no decote da blusa de seda de brechó, passou a mão sobre os cabelos negros tingidos e bem cuidados e procurou uma mesa.
Os sapatos pouco usados lhe doíam na ponta dos dedos, e também no calcanhar, mas Fulana não demonstrou quando levantou ríspida para pegar o cardápio no balcão – que demora de atendimento, faziam quase dois minutos e meio que estava à espera.
Sem sorrir e evitando contato com os olhos da garçonete baixinha de saia rodada, ela pediu um espresso, duplo, por favor. O café meio-morno chegou e Fulana comeu as beiradas do chantilly primeiro sem nem perceber que na verdade era marshmallow.
Um moço magricela e espichado apontou na porta. Usava calças risca-de-giz curtas demais e podíamos reparar que no pé direito vestia meia vermelha e, no esquerdo, cinza. Alisou o protuberante bigode e parou, também observando os arredores. Seus olhos encontraram-se com os de Fulana, apressou o passo até a mesa que ela escolhera enquanto tirava o chapéu coco.
- Belos sapatos.
Ela sorriu pela primeira vez, ainda que frívola. Ele sentou-se.
Os dois conversaram sobre Nietzsche mesmo que nem soubessem o significado de Zarathustra. Também discutiram Woody Allen e o encaixaram na categoria melancolia das salas de cinema. A última das conversas girou em torno de reclamar de pessoas que reclamam.
No fim do dia, Fulana chegou em casa, tirou a blusa de seda e andou de sutiã pela casa, estourou uma bolha do dedão do pé, descascou uma laranja tentando não quebrar a casca, ligou para a mãe e lhe tranquilizou de que ainda estava viva e passou a noite assistindo à programas aleatórios na TV aberta.
Que seria do julgamento se todas as histórias tivessem um lado só. No fundo, somos todos tão parecidos.












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