Viver em paz
Ele fixou os olhos perplexos nela, até que respondesse. “Eu… não sei.” – Ela nunca sabia de nada e essa era uma das coisas mais irritantes que ele por muitas vezes conseguira tolerar. As coisas andavam meio monótonas nos últimos dias, o dinheiro era curto, não saiam pra jantar, trabalhavam até tarde e mal se falavam antes de deitar. Ele almoçava e saía, ela comia o que sobrou enquanto lia. Mas a pergunta ainda precisava de uma resposta sabida. “Você está feliz?”
**
Carregava aquele monte de pastas com montes de documentos pra lá e pra cá há tanto tempo que aquilo já era parte de si. O que se notou foi a dor nas costas e os braços pesados, a cabeça que não se mantinha sem comprimidos e o scarpin gasto e sofrido. Essa pasta pra cá, esse documento para o Sr. X, aquela pilha de notas para a Sra. Y, o arquivo inteiro pra lá. O que é que isso tudo me agrega? Quando a resposta foi “nada”, a moça pegou o telefone e comprou primeira classe para Qualquer Lugar.
**
Quando parecia que sua única chance era empurrar a cadeira para a frente e pender pela corda eis que surgiu o insight. Era insana essa vida, tomar Champagne no almoço e ir e voltar de NY de avião todas as quartas-feiras sendo que, em algum lugar, alguém passava fome. Como vou ser feliz em um mundo tão cruel e injusto? Como posso comparar o problemão que tive para encontrar o terno ideal quando o problema de outrém é não ter água potável para beber? Ele desceu da cadeira, ajeitou a gravata e sentou. Em seguida, jogou o computador pela janela do trigésimo segundo andar. Alguém gritou.






